As gotas de água<br>nos copos cheios
Tenho de voltar ao assunto porque «eles» estão a ganhar ao nosso País e ao nosso Povo. A que assunto me refiro? A um dos temas preferidos do persistente reaccionarismo nacional que sempre gostou de propalar aquela de que seríamos um país de doutores, conseguindo mesmo que estas ideias sejam amplamente propagadas através das classes populares, como «eles» gostam de apelidá-las. Uma manifestação reaccionária com raízes profundas neste fraco e pouco tido em conta elo da famosa cadeia, que é o nosso País.
Com efeito, não tendo conseguido durante anos suster o movimento de alargamento – insuficiente – do contingente de estudantes de ensino superior no nosso País – aliás, como foi visível para a generalidade do sistema de ensino nas últimas, digamos, três décadas, um movimento que coincidiu grosso modo com o período pós-Abril –, essas vozes do tal «Portugal profundo», e essas pessoas e sectores, com o tempo, foram voltando à tona da sociedade.
Ainda numa primeira fase, enquanto a procura de vagas no ensino superior ia sobrelotando o sistema, adoptaram posturas como a de poder ganhar alguma coisa com isso, aqui d’el rei, a universidade privada para aqui e para acolá. Com tal finalidade, estabeleceram-se em «cooperativas» e montaram-se nelas, a ganhar e, de um modo geral, nada interessados na sua qualidade, que esta diminui lucros. Sobretudo, aquilo que foi designado as universidades do lápis e do papel…. isto enquanto o hábito do computador não se espraiava demasiado.
Nessa primeira fase, o numerus clausus constituiu o instrumento absolutamente necessário. Não só tal método ajudava a desviar candidatos suficientes para o negócio das universidades – negócio mesmo assim algo mexeruco, como não podia deixar de ser num País pouco afoito a empreendimentos dignos de nota… –, como, nalguns, casos [o numerus clausus] opunha um dique alto à formação de profissionais em áreas tão protegidas da concorrência quanto possível – em áreas tão vitais como a saúde das pessoas… mas também outras. Vão para Espanha estudar, gastem o dinheiro necessário se o conseguirem arranjar!
Extenuados, desesperançados, desiludidos, os candidatos, e os seus pais, começaram a esmorecer. Para quê estudar se não se podia garantir um futuro risonho em termos de emprego? Desemprego ou emprego muito abaixo do almejado é o que se pode esperar. E os velhos do Restelo a ajudarem. Estudar, para quê, onde estão os empregos, ganham menos, não têm os privilégios que eram os expectáveis para os «doutores» até há pouco!
(O saber e a cultura só como instrumento, mais a mais de índole «taylorísitica»! O saber e a cultura como necessidade intrínseca desvalorizado. Nós a lembrar-nos da tese que o saber e a cultura, ao contrário da ignorância, só podem trazer infelicidade, excepto para os que têm posses, claro!)
Entretanto, o cenário do 31º aniversário do Universidade do Minho (UM), 17 de Fevereiro de 2005 (o tempo da sua fundação, pois foi, já o surgir de Abril vinha fazendo a parte final da sua caminhada). Na cerimónia estava Joaquim Chissano, a ser doutorado honoris causa pela UM em Ciência Política e Relações Internacionais, apadrinhado por Mário Soares. Jorge Sampaio também presente. O reitor da UM a afirmar, «talvez» sabendo bem o que dizia: «O efeito do aumento das propinas foi significativo, verificando-se uma redução no número de alunos inscritos, na ordem dos 600».
Aumentos anuais de propinas de «apenas» 640 Euros para 740 Euros dirão os mais insensíveis – chamo-lhes eu – à elasticidade de uma procura destas. Mas eles – continuam os mesmos realistas – têm dinheiro para ir de automóvel em vez de usarem transporte público, esses meninos; com o dinheiro que gastam nos bares e nas discotecas já pagariam a diferença nas propinas. Que se vão embora, não estudam, só querem é ramboiada! E, pelos vistos – seguindo estas ideias avisadas de poupantes de gastos públicos - só na UM terão sido 600, de entre os mais pobres e de classes populares, os que preferiram a borga aos estudos. Qu’engraçado!
Terão o Presidente e o ex-Presidente do nosso País ficado orgulhosos da lição de rigor de finanças públicas dado ao ex-Presidente da RP de Moçambique?
Os tais reaccionários a ficarem contentes perante a eficácia do sistema de propinas; os com mais posses de entre eles a pensarem: qualquer dia talvez possamos estar outra vez à vontade para as postas de emprego mais interessantes. E os filhos dos outros ficarão outra vez onde estavam. Cinismo a mais e estúpido, o meu?
Com efeito, não tendo conseguido durante anos suster o movimento de alargamento – insuficiente – do contingente de estudantes de ensino superior no nosso País – aliás, como foi visível para a generalidade do sistema de ensino nas últimas, digamos, três décadas, um movimento que coincidiu grosso modo com o período pós-Abril –, essas vozes do tal «Portugal profundo», e essas pessoas e sectores, com o tempo, foram voltando à tona da sociedade.
Ainda numa primeira fase, enquanto a procura de vagas no ensino superior ia sobrelotando o sistema, adoptaram posturas como a de poder ganhar alguma coisa com isso, aqui d’el rei, a universidade privada para aqui e para acolá. Com tal finalidade, estabeleceram-se em «cooperativas» e montaram-se nelas, a ganhar e, de um modo geral, nada interessados na sua qualidade, que esta diminui lucros. Sobretudo, aquilo que foi designado as universidades do lápis e do papel…. isto enquanto o hábito do computador não se espraiava demasiado.
Nessa primeira fase, o numerus clausus constituiu o instrumento absolutamente necessário. Não só tal método ajudava a desviar candidatos suficientes para o negócio das universidades – negócio mesmo assim algo mexeruco, como não podia deixar de ser num País pouco afoito a empreendimentos dignos de nota… –, como, nalguns, casos [o numerus clausus] opunha um dique alto à formação de profissionais em áreas tão protegidas da concorrência quanto possível – em áreas tão vitais como a saúde das pessoas… mas também outras. Vão para Espanha estudar, gastem o dinheiro necessário se o conseguirem arranjar!
Extenuados, desesperançados, desiludidos, os candidatos, e os seus pais, começaram a esmorecer. Para quê estudar se não se podia garantir um futuro risonho em termos de emprego? Desemprego ou emprego muito abaixo do almejado é o que se pode esperar. E os velhos do Restelo a ajudarem. Estudar, para quê, onde estão os empregos, ganham menos, não têm os privilégios que eram os expectáveis para os «doutores» até há pouco!
(O saber e a cultura só como instrumento, mais a mais de índole «taylorísitica»! O saber e a cultura como necessidade intrínseca desvalorizado. Nós a lembrar-nos da tese que o saber e a cultura, ao contrário da ignorância, só podem trazer infelicidade, excepto para os que têm posses, claro!)
Entretanto, o cenário do 31º aniversário do Universidade do Minho (UM), 17 de Fevereiro de 2005 (o tempo da sua fundação, pois foi, já o surgir de Abril vinha fazendo a parte final da sua caminhada). Na cerimónia estava Joaquim Chissano, a ser doutorado honoris causa pela UM em Ciência Política e Relações Internacionais, apadrinhado por Mário Soares. Jorge Sampaio também presente. O reitor da UM a afirmar, «talvez» sabendo bem o que dizia: «O efeito do aumento das propinas foi significativo, verificando-se uma redução no número de alunos inscritos, na ordem dos 600».
Aumentos anuais de propinas de «apenas» 640 Euros para 740 Euros dirão os mais insensíveis – chamo-lhes eu – à elasticidade de uma procura destas. Mas eles – continuam os mesmos realistas – têm dinheiro para ir de automóvel em vez de usarem transporte público, esses meninos; com o dinheiro que gastam nos bares e nas discotecas já pagariam a diferença nas propinas. Que se vão embora, não estudam, só querem é ramboiada! E, pelos vistos – seguindo estas ideias avisadas de poupantes de gastos públicos - só na UM terão sido 600, de entre os mais pobres e de classes populares, os que preferiram a borga aos estudos. Qu’engraçado!
Terão o Presidente e o ex-Presidente do nosso País ficado orgulhosos da lição de rigor de finanças públicas dado ao ex-Presidente da RP de Moçambique?
Os tais reaccionários a ficarem contentes perante a eficácia do sistema de propinas; os com mais posses de entre eles a pensarem: qualquer dia talvez possamos estar outra vez à vontade para as postas de emprego mais interessantes. E os filhos dos outros ficarão outra vez onde estavam. Cinismo a mais e estúpido, o meu?